Recentemente, tenho lido muito os trabalhos da Joanna Moncrieff, psiquiatra inglesa que alcançou bastante relevância com suas críticas à psiquiatria – a qual, em sua opinião, é excessivamente focada no uso de remédios1. Moncrieff não nega os benefícios possíveis com uso de medicações, porém defende que prescrevemos demais e por mais tempo do que o necessário, subestimando os efeitos adversos associados a estas condutas.
Logo, foi grande a minha surpresa ao descobrir que ela conduziu um grande ensaio clínico randomizado, com 253 pacientes, para testar na prática as suas teorias. No estudo RADAR, publicado em 2023, Joanna queria avaliar qual o impacto da redução/interrupção de antipsicóticos em pacientes com esquizofrenia2. Sua hipótese era que a redução levaria a um melhor funcionamento social, sem aumentar o risco de internações ou de piora sintomática.
Apesar da resposta a essa pergunta parecer óbvia (claro que aumentaria os riscos!), o estudo é interessante porque a redução de antipsicóticos foi feita de forma gradual, diferente de estudos anteriores em que a interrupção era súbita.
Como nosso cérebro precisa de semanas para se adaptar a reduções de dose, parar a medicação sem um “desmame” gradual pode causar sintomas que são facilmente confundidos com a recidiva da condição psiquiátrica de base. Não é à toa que nos últimos anos tem crescido a ideia de “redução hiperbólica” de medicações psiquiátricas3.
Porém, mesmo com este cuidado metodológico, o grupo que reduziu os antipsicóticos apresentou:
Maior risco de internação/recidiva;
Nenhuma mudança no funcionamento social;
Nenhuma mudança em efeitos adversos (!).
Como interpretar esses resultados, tão contrários à hipótese inicial? Uma interpretação possível é de que não há motivo para tentar reduzir antipsicóticos, afinal de contas, a evidência demonstra riscos aumentados sem benefício claro4.
Outra interpretação seria que os resultados permitem uma conversa mais clara entre psiquiatra e paciente sobre os riscos de redução de antipsicóticos.
Precisamos lembrar que estes resultados são a nível populacional, ou seja, refletem a média daquele grupo. Alguns pacientes de fato obtiveram redução de efeitos adversos sem piora de sintomas. Porém, 1 em cada 4 pacientes que reduziram a medicação foram internados novamente, o que está claramente associado à piora no funcionamento social. Ironicamente, o exato oposto da hipótese inicial.
Então, numa perspectiva de decisão compartilhada do tratamento, estas informações ajudam o paciente a entender os possíveis cenários em uma tentativa de redução de antipsicóticos. Trata-se de equilibrar as evidências médicas com a sua história de vida e valores, buscando a escolha mais segura para o seu momento atual5.
Voltando ao estudo, os resultados nos direcionam para novas perguntas: será que o desmame não foi gradual o suficiente, e de fato precisamos seguir um protocolo hiperbólico? Será que não houve redução de efeitos adversos porque eles são mais duradouros do que esperávamos? De qualquer forma, os autores irão reavaliar estes pacientes entre 4-7 anos após o fim do estudo, o que deve nos ajudar a responder algumas das questões em aberto.
No fim das contas, o estudo nos devolve a uma questão fundamental da medicina: o equilíbrio entre riscos e benefícios. Enquanto aguardamos novas evidências, o melhor protocolo continua sendo a cautela, a escuta atenta aos sinais do corpo e, acima de tudo, a paciência.
Afinal, o cérebro não tem pressa para se adaptar – nós é que temos!
Referências